Trump pode estar mais próximo de um plano para encerrar guerra com o Irã?
Iranianos em protesto nas ruas EPA via BBC O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece cada vez mais interessado em encontrar uma saída para o confli...
Iranianos em protesto nas ruas EPA via BBC O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece cada vez mais interessado em encontrar uma saída para o conflito com o Irã, ou o que ele chama de "encerrar" a guerra. Mas sua estratégia não está clara — e as mensagens contraditórias de Trump sugerem que ele ainda está indeciso sobre o que seria melhor: intensificar o conflito para tentar encerrá-lo o mais rápido possível ou pressionar por um acordo negociado com Teerã. Na terça-feira (24), Trump sinalizou que os EUA podem seguir ambas as estratégias simultaneamente. Em questão de horas, o Pentágono ordenou o envio de tropas terrestres para a região, e negociadores americanos enviaram ao regime iraniano um novo plano de paz de 15 pontos. Na quarta-feira, a Casa Branca pressionava o Irã a aceitar o acordo, ao mesmo tempo em que ameaçava atingir o país com mais força do que nunca, aumentando ainda mais a confusão sobre as intenções de Trump. À medida que a guerra se intensifica, cresce a preocupação dentro do governo de que Trump não tenha um plano concreto para o futuro próximo, de acordo com ex-funcionários americanos e aliados externos próximos à Casa Branca, alguns dos quais falaram sob condição de anonimato. "Eles estão muito apreensivos porque está claro que Trump não pensou em tudo isso", disse um ex-funcionário do governo que trabalhou com Trump em seu primeiro mandato e que pediu para não ser identificado. Na quarta-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse: "O presidente Trump não blefa e está preparado para 'desencadear o inferno'". Ela acrescentou: "O Irã não deve errar nos seus cálculos novamente". O Irã respondeu rejeitando a proposta de paz, o que gerou dúvidas sobre se os dois países estavam realmente envolvidos em negociações diplomáticas sérias. Os desdobramentos mais recentes são sintomáticos sobre como Trump aborda a guerra que assolou o Oriente Médio, abalou a economia global e criou uma divisão entre diferentes facções do Partido Republicano. Autoridades da Casa Branca insistem que os EUA estão ditando o rumo dos acontecimentos no Irã. Mas a rejeição do plano de paz por Teerã ressaltou a realidade de que Trump não controla totalmente a direção do conflito. Além dos objetivos de guerra mais amplos de Trump, permanece em aberto a questão de como os EUA podem garantir a abertura do Estreito de Ormuz, por onde passam aproximadamente 20% das exportações globais de petróleo e gás. Mais de três semanas após o início da guerra, os EUA ainda não têm uma resposta para impedir os ataques iranianos a navios comerciais na região, que fizeram os preços dispararem. Até agora os apelos de Trump para que os aliados da Otan ajudem não foram atendidos. "O problema para o presidente é o Estreito de Ormuz. Se ele deixá-lo nas mãos do Irã, será difícil para ele reivindicar a vitória", diz Stephen Hadley, que atuou como conselheiro de Segurança Nacional do presidente George W. Bush. A falha de Trump em "consultar outros países é um dos motivos pelos quais o governo está tendo tanta dificuldade em conseguir o apoio de aliados", acrescentou. A incerteza em Washington em relação à próxima fase da guerra aumentou na quarta-feira, com a divulgação de novos detalhes sobre o plano de paz proposto pelo governo. O presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, seguiu o mesmo tom confiante da Casa Branca ao dizer a repórteres que acredita que os EUA estão "concluindo" a operação militar. "E acho que isso será feito em breve." Alguns de seus colegas republicanos, no entanto, manifestaram publicamente sua preocupação com a notícia de que Trump havia ordenado o envio de mais de mil paraquedistas para o Irã. A congressista Nancy Mace, da Carolina do Sul, criticou o envio de tropas após autoridades de defesa realizarem uma reunião a portas fechadas. "Acabei de sair de uma reunião informativa do Comitê de Serviços Armados da Câmara sobre o Irã. Deixe-me repetir: não apoiarei tropas em solo iraniano, ainda mais depois desta reunião", escreveu Mace em uma postagem no X. A rara repreensão de um congressista republicano destacou a divisão entre os políticos anti-intervencionistas do Maga (o movimento Make America Great Again, de Trump) e os integrantes do partido que apoiam o esforço de guerra. Na quarta-feira, o presidente do Comitê de Serviços Armados da Câmara, Mike Rogers, disse a repórteres que o Pentágono não estava fornecendo aos parlamentares detalhes suficientes sobre a guerra, informou a CBS News. A reação discreta à proposta de paz dos EUA entre os republicanos no Congresso ressaltou ainda mais a ansiedade que muitos no partido sentem em relação à guerra, às vésperas de uma difícil eleição de meio de mandato. O plano de paz de 15 pontos Segundo alguns relatos, o plano de paz dos EUA inclui exigências para que o Irã abandone seu programa nuclear, limite seus mísseis balísticos e permita a reabertura do Estreito de Ormuz, entre outras condições. Parece semelhante às propostas de paz que os negociadores americanos Steve Witkoff e Jared Kushner — que lideram os esforços com o Irã — usaram nas negociações de paz em Gaza e na Ucrânia. Esses planos também incluíam propostas com vários pontos que foram posteriormente alteradas à medida que as negociações evoluíam. O plano vazou depois que Trump ameaçou, na semana passada, intensificar a guerra em 48 horas se o Irã não concordasse em reabrir o Estreito de Ormuz. Trump mudou de ideia na segunda-feira, dizendo que decidiu suspender o novo ataque por cinco dias porque o Irã e os EUA estavam fazendo "grandes progressos" para chegar a um acordo para encerrar a guerra. Mas mesmo antes de o Irã responder, especialistas do Oriente Médio alertaram que as exigências seriam vistas como inaceitáveis pelo regime em Teerã. Acredita-se que o regime está desconfiado dos esforços dos EUA para negociar depois que o governo suspendeu as negociações sobre o programa nuclear do Irã no mês passado, antes de iniciar a guerra dias depois. Quando a resposta iraniana chegou, ficou claro que Teerã acredita ter tanto ou até mais controle sobre o rumo da guerra do que os EUA, apesar da insistência de Trump de que os EUA já venceram. Um funcionário iraniano, citado anonimamente na TV estatal, descartou o plano e disse que Teerã tinha suas próprias exigências para um acordo de cessar-fogo. "O Irã encerrará a guerra quando decidir fazê-lo e quando suas próprias condições forem atendidas", disse o funcionário. À TV estatal, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse na quarta-feira que não havia negociações em andamento entre os dois países. Araghchi também afirmou que o Irã não planejava abrir o Estreito de Ormuz para navios ocidentais aliados aos EUA. "Não há razão para permitir a passagem de navios de nossos inimigos e seus aliados", disse ele. A Casa Branca pode estar apostando que o envio de tropas terrestres ao Irã vai pressionar o regime a reabrir o Estreito de Ormuz e, eventualmente, levá-lo à rendição completa. Mas não está claro como um destacamento limitado de tropas por elementos da 82ª Divisão Aerotransportada impactará o estreito ou mudará o curso mais amplo do conflito. Especialistas militares disseram que a força provavelmente se concentraria em ajudar a criar as condições para reabrir a importante via navegável. Um cenário potencial envolve os EUA assumindo o controle da Ilha de Kharg, uma pequena ilha no Golfo Pérsico que serve como principal centro de exportações de petróleo iranianas. "O envio de tropas terrestres daria aos EUA uma grande vantagem e um melhor controle sobre" o Estreito de Ormuz, disse Miad Maleki, ex-funcionário do Departamento do Tesouro que ajudou a supervisionar a implementação das sanções americanas ao setor petrolífero iraniano. Mas "isso representará uma ameaça maior às nossas forças, então esse é um risco que estaríamos correndo." A escalada da guerra com o envio de tropas terrestres é mais uma prova de que o governo "não tem uma estratégia articulada" para a guerra, disse Jason Campbell, ex-funcionário da defesa dos EUA durante o governo Obama e do primeiro mandato de Trump. "O que estamos vendo aqui não é o resultado de um plano elaborado com objetivos claros", disse ele. "Parece mais um jogo improvisado de 'quais unidades estão disponíveis para mim agora?'"