Por que municípios pequenos de MS concentram as maiores taxas de violência do estado
Interior de MS enfrenta alta em taxas de violência A violência em Mato Grosso do Sul tem características diferentes entre as cidades, mas expõe desafios que...
Interior de MS enfrenta alta em taxas de violência A violência em Mato Grosso do Sul tem características diferentes entre as cidades, mas expõe desafios que vão dos pequenos municípios às regiões de fronteira. Sonora, a 360 quilômetros de Campo Grande, registrou em 2024 a maior taxa de homicídios do estado: 74,2 mortes por 100 mil habitantes, segundo dados do Atlas da Violência 2026. No mesmo período, a média estadual foi de 18,3 por 100 mil. Veja o vídeo acima. O município teve 11 homicídios em uma população de 14.822 habitantes. Apesar do número absoluto ser menor que o registrado nas cidades mais populosas, a proporção de mortes em relação ao tamanho da população faz Sonora aparecer no topo do ranking estadual. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp O cenário de violência também aparece em outras regiões e atinge grupos específicos. Com base em informações da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), entre 2020 e 2025, 216 mulheres foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso do Sul. O número representa uma média de 36 mortes por ano, ou aproximadamente uma mulher assassinada a cada dez dias. 🔎 Esta reportagem faz parte da série “Me Escute Porque Eu Decido”, exibida no MS2 entre os dias 7 e 11 de setembro. Os conteúdos integram a cobertura especial da TV Morena para as Eleições 2026. Feminicídio deixa famílias marcadas Em Sonora, a violência também transformou a rotina de famílias. Gabrielli Oliveira dos Santos tinha 25 anos quando foi morta pelo marido, em novembro de 2025. Os pais relatam que o relacionamento de oito anos era marcado por abusos e que perceberam mudanças no comportamento da filha depois que ela passou a morar com o companheiro. “Ele pegou e falou bem assim: ‘eu matei a Gabrielli'. Na hora que ele falou aquilo, para mim acabou”, contou Sandra Maria de Oliveira, mãe de Gabrielli. O pai, Sérgio Souza dos Santos, afirmou que percebia sinais de que havia algo errado antes mesmo de a filha morar com o homem. “Ela era uma pessoa alegre, antes de ir morar com ele. Depois que foi morar com ele, ela se trancou, ela parece que era uma pessoa oprimida”, disse o pai da vítima. Segundo o relato da mãe, Gabrielli estava separada do marido, mas ainda precisava ir à casa onde havia morado para buscar os pertences dela e do filho. Foi em uma dessas ocasiões que ela acabou sendo morta. O marido, Diovani Alfredo Dique de Oliveira, de 31 anos, se entregou à polícia após o crime e aguardava julgamento no presídio de Coxim. “Quando cai a ficha que nunca mais eu vou ver minha filha, aquilo me dá um aperto no coração, um desespero assim que dá vontade assim de sair gritando, gritando, gritando de tanta dor que a gente sente”, disse a mãe de Gabrielli. Pais de Gabrielli lamentam a perda da filha Arquivo TV Morena Violência contra indígenas Outro grupo que aparece entre as vítimas da violência no estado são os povos indígenas. Conforme dados do Atlas da Violência, 228 indígenas foram assassinados em Mato Grosso do Sul entre 2019 e 2024, uma média de 38 mortes por ano. A disputa por terras é apontada como um dos principais fatores relacionados aos conflitos envolvendo comunidades indígenas no estado. Na comunidade Pyelito Kue, em Iguatemi, ocorreu o assassinato do indígena Guarani-Kaiowá Vicente Fernandes Vilhalva, de 36 anos. A comunidade havia sido atacada por mais de 20 pessoas armadas. Vicente foi atingido na cabeça. Nove meses depois da morte, a área permanecia sob proteção da Força Nacional. A comunidade vive em áreas de retomada enquanto aguarda a conclusão do processo de homologação da Terra Indígena Iguatemipegua I, já delimitada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A violência deixou marcas profundas em moradores como Kunhã’i, indígena de 37 anos que estava grávida durante um ataque à comunidade, em 2016. Ela contou ter sido agredida e ameaçada durante o episódio. A filha não sobreviveu. “A enfermeira falou para mim: a senhora perdeu a sua menina. Eu tenho dó, eu chorei, chorei.” Hoje, 129 famílias vivem na área de retomada. Os moradores recebem cesta básica e mantêm pequenas plantações de alimentos, como batata-doce, mandioca, abóbora e abacaxi. “A gente só retornamos para cá, no período só para viver feliz, em paz com a família”. Pequenas cidades têm maiores taxas O ranking de homicídios mostra uma diferença importante entre taxa proporcional e número absoluto de mortes. Entre os municípios com as maiores taxas em 2024, estão: 1° Sonora, 11 homicídios e taxa de 74,2 por 100 mil habitantes. 2° Iguatemi, com taxa de 57,1 por 100 mil habitantes. 3° Angélica e Taquarussu, com taxa de 53,6 por 100 mil habitantes. 4° Antônio João, com taxa de 51,9 por 100 mil habitantes. 5° Japorã, com taxa de 47,6 por 100 mil habitantes. 6° Paranhos, com taxa de 45 por 100 mil habitantes. 7° Jutí, com taxa de 42,8 por 100 mil habitantes. 8° Brasilândia, com taxa de 42,2 por 100 mil habitantes. 9°Coronel Sapucaia, com taxa de 40,9 por 100 mil habitantes. Já quando são considerados os números absolutos, o ranking muda. Campo Grande registrou 175 homicídios em 2024, seguida por Dourados, com 42; Três Lagoas, com 23; Corumbá, com 22; e Ponta Porã, com 21. A diferença ocorre porque poucos homicídios podem representar uma taxa muito alta quando a população do município é pequena. Fronteira e crime organizado Além dos homicídios, o narcotráfico e a atuação do crime organizado são apontados como fatores que influenciam a segurança pública em Mato Grosso do Sul. O estado possui mais de 1,5 mil quilômetros de fronteira com Paraguai e Bolívia, uma localização que o transforma em rota estratégica para o tráfico internacional de drogas e armas. Para Luciano Barros, doutor em Relações Internacionais e presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF), a falta de estrutura de vigilância nos países fronteiriços contribui para a expansão do crime organizado. “Nós temos pouca infraestrutura de vigilância nesses dois países que fazem fronteira com o Mato Grosso do Sul e que propiciam a larga expansão do crime organizado, agindo nestas áreas.” Segundo o especialista, combater a violência exige ir além da atuação policial. Ele defende a integração entre segurança pública e áreas como educação, saúde, emprego, renda e moradia. “Normalmente, esses bolsões de criminalidade é onde o crime busca a mão de obra farta e é onde tem maior vulnerabilidade social.” A proposta, segundo ele, é atuar também na prevenção, identificando regiões de maior vulnerabilidade antes que os problemas sociais se transformem em novos episódios de violência. Os dados e os relatos deixam claro que enfrentar a violência em Mato Grosso do Sul exige estratégias que vão além do policiamento tradicional. Seja no combate ao crime organizado nas fronteiras, na proteção aos povos originários ou no enfrentamento ao feminicídio. *Produção: Alysson Maruyama, Caio Tumelero, Gessé López, Michel Pena, Nádia Nicolau, Nicholas Vasconcelos e Rodrigo de Freitas. Imagens: Aldemir Romero, Fábio Rodrigues, Itamar Silva e Valdeir Pereira. Assistente técnico: Nelson Bueno. Videografismo: Leandro Ricarte e Paulo Ribeiro. Edição de imagens: Paulo Ribeiro. Roteiro e direção: Jaqueline Bortolotto. Gabrielli foi vítima de feminicídio e Kunhã’i perdeu a filha em um conflito Arquivo / TV Morena Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: