Paciente com tipo raro de esclerose mantém movimentos e segue trabalhando um ano após tratamento com medicamento 'personalizado'

Esclerose múltipla: entenda o que é e quais são os sintomas Um paciente com uma forma rara de esclerose lateral amiotrófica (ELA) manteve o quadro estável ...

Paciente com tipo raro de esclerose mantém movimentos e segue trabalhando um ano após tratamento com medicamento 'personalizado'
Paciente com tipo raro de esclerose mantém movimentos e segue trabalhando um ano após tratamento com medicamento 'personalizado' (Foto: Reprodução)

Esclerose múltipla: entenda o que é e quais são os sintomas Um paciente com uma forma rara de esclerose lateral amiotrófica (ELA) manteve o quadro estável e continuou trabalhando um ano depois de receber um medicamento desenvolvido para atingir a mutação genética que causa a sua doença. O caso foi publicado em 14 de setembro na revista científica Med. Ele tem uma alteração no gene CHCHD10, presente em menos de 1% das pessoas que herdam a ELA. Os médicos desenvolveram um tratamento personalizado para atingir a mutação que causa a doença. Ao longo de um ano, ele recebeu seis injeções do medicamento. Ao fim desse período, os exames e os testes clínicos indicavam estabilidade ou melhora discreta. Algumas pessoas com ELA têm melhora passageira dos sintomas sem tratamento, mas uma melhora sustentada é rara, afirmou à Nature o neurologista Björn Oskarsson, da Clínica Mayo, um dos autores do estudo. O tratamento ainda está sendo pesquisado. Os autores afirmam que os achados sustentam novas avaliações do medicamento. Um remédio que age sobre o RNA do gene alterado Cada pessoa tem duas cópias de cada gene, uma herdada de cada pai. Na forma de ELA do paciente, basta uma cópia alterada do CHCHD10 para a doença se manifestar, o que os cientistas chamam de herança dominante. O gene funciona como uma receita para fabricar uma proteína que ajuda as mitocôndrias, estruturas que geram a energia das células, a funcionar. A alteração, chamada p.Arg15Leu, troca na posição 15 um aminoácido, um dos blocos que formam as proteínas (a arginina), por outro (a leucina). Os autores partem da hipótese de que a proteína com essa troca passa a ter um efeito tóxico sobre os neurônios. Se for assim, produzir menos dela pode reduzir o dano, e é essa a aposta do tratamento. Para fabricar uma proteína, a célula não usa a receita original diretamente. O DNA fica guardado no núcleo, e a célula faz uma cópia da receita, o RNA, que serve de molde. É como um livro de receitas em que o DNA é o livro e o RNA, a fotocópia de uma página levada à cozinha. Sem a fotocópia, o prato não sai. O medicamento, chamado nL-CHCHD-001, é um oligonucleotídeo antissenso (ASO), um pequeno fragmento de material genético desenhado para se encaixar no RNA do CHCHD10, como duas peças complementares. Depois do encaixe, uma enzima da própria célula corta o RNA, e a produção da proteína cai. Como o ASO age sobre o RNA, o DNA do paciente não é modificado, ao contrário do que ocorre na terapia gênica. O remédio também não diferencia a cópia alterada do gene da cópia saudável. Como o paciente tem uma de cada, a produção de proteína das duas diminui. O que mudou depois de um ano O primeiro sinal veio do sangue. A cadeia leve de neurofilamento (NfL) é uma proteína liberada por neurônios lesionados e usada como marcador da atividade da doença. No início do tratamento, estava um pouco acima do normal. Caiu cerca de 50% e voltou à faixa de referência do laboratório. Nos testes clínicos, a pontuação na Escala de Avaliação Funcional da ELA , que avalia atividades como falar, engolir, andar e respirar, foi de 33 para 36. A escala vai de 0 a 48 pontos e costuma cair conforme a doença avança. A capacidade vital, que indica o volume de ar que os pulmões conseguem mobilizar, subiu de 48% para 55% do previsto. Os escores de cognição e de qualidade de vida ficaram estáveis. Essa estabilidade é rara em quadros como esse da doença. O caso mostra que é possível transformar um diagnóstico genético em um medicamento sob medida e mostra um caminho de possibilidades para a doença. Porém ainda são necessários mais estudos para entender o quanto os resultados se sustentam no tempo e o quanto a doença pode permanecer estável com a medicação.

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