Mercúrio é encontrado em penas de urubu-de-cabeça-vermelha na Amazônia

Mercúrio é encontrado em penas de urubu-de-cabeça-vermelha na Amazônia Nailson de Andrade Neri Júnior Um dos contaminantes mais preocupantes para a saúde ...

Mercúrio é encontrado em penas de urubu-de-cabeça-vermelha na Amazônia
Mercúrio é encontrado em penas de urubu-de-cabeça-vermelha na Amazônia (Foto: Reprodução)

Mercúrio é encontrado em penas de urubu-de-cabeça-vermelha na Amazônia Nailson de Andrade Neri Júnior Um dos contaminantes mais preocupantes para a saúde ambiental e humana, o mercúrio foi detectado em todas as amostras de penas de urubus-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) analisadas por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade Federal do Pará (UFPA) e de outras instituições associadas. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram O estudo avaliou 38 aves capturadas na região do Aeroporto Internacional de Belém (PA). O manejo e a captura da fauna no local ocorrem originalmente com o objetivo de translocar os animais para evitar colisões com aeronaves. As análises revelaram que 100% dos indivíduos apresentaram diferentes níveis de contaminação pelo metal. Os resultados preliminares foram apresentados durante o evento Avistar 2026 e acendem um alerta sobre a presença desse contaminante na Amazônia Oriental. Embora ainda não seja possível determinar exatamente onde ocorreu a exposição, o fato de todos os indivíduos apresentarem mercúrio indica que a contaminação está amplamente distribuída no ambiente. O achado foi um desdobramento de outras análises. Inicialmente, o estudo surgiu a partir da coleta de amostras sanguíneas e microbiológicas dos urubus, sem o objetivo primário de buscar o metal. A pesquisa, no entanto, acabou revelando o quanto a fauna amazônica está exposta a esse tipo de contaminação. "Por estarmos em uma área com intensa pressão humana, fez sentido realizarmos essa investigação, mas a princípio não sabíamos se iríamos ou o quanto iríamos encontrar desse contaminante", diz o médico veterinário Nailson de Andrade Neri Júnior, um dos responsáveis pela pesquisa. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: MISTÉRIO DE 1870: Fóssil revela escorpião gigante que viveu há milhões de anos INÉDITO: Levantamento registra 241 espécies de borboletas em área pouco estudada do Brasil 'NUNCA MAIS VOU VER ISSO': Guia registra encontro entre duas das aves mais raras do Brasil Por serem aves necrófagas — que se alimentam de animais mortos —, os urubus-de-cabeça-vermelha ocupam uma posição estratégica para esse tipo de monitoramento. Eles consomem organismos de diferentes ambientes e acumulam contaminantes presentes na cadeia alimentar por meio de um fenômeno natural chamado bioacumulação. Nailson explica que as penas do animal funcionam como um registro biológico da presença de mercúrio no organismo. Isso permite que os cientistas avaliem a saúde da ave sem causar qualquer dano a ela. O que o mercúrio causa nas aves? Mercúrio é encontrado em penas de urubu-de-cabeça-vermelha na Amazônia Nailson de Andrade Neri Júnior O mercúrio é um elemento tóxico que pode permanecer por longos períodos no ambiente e nos seres vivos. Como possui poucas vias naturais de eliminação corporal, sua bioacumulação é altamente favorecida. A bioacumulação é o processo no qual poluentes são absorvidos e se acumulam progressivamente nos tecidos de um organismo ao longo do tempo, em uma taxa maior do que a sua capacidade de excreção. A cada nível trófico da cadeia alimentar, o nível da substância aumenta, um processo conhecido como biomagnificação. Nas aves, os impactos são diversos. Segundo o médico-veterinário, a exposição ao metal está associada à redução do sucesso reprodutivo, alterações neurológicas, comprometimento do sistema imunológico, danos hepáticos e problemas na gestação. "Espécies que ocupam níveis mais altos da cadeia alimentar tendem a acumular maiores concentrações do contaminante ao longo da vida, tornando-se mais suscetíveis aos seus efeitos tóxicos", confirma Nailson. Por esse motivo, os urubus são considerados excelentes bioindicadores — ou "sentinelas" — ambientais. Ao analisá-los, os cientistas conseguem obter pistas fundamentais sobre a qualidade do ecossistema de determinadas regiões. Veja o que está em alta no g1: Agora no g1 De onde vem essa contaminação? Embora os animais tenham sido capturados na capital paraense, Nailson ressalta que ainda não é possível afirmar o local exato da contaminação. Urubus-de-cabeça-vermelha costumam percorrer grandes distâncias em busca de alimento, atravessando diversos municípios, o que amplia o raio de busca por uma fonte específica. A principal hipótese é que a exposição esteja diretamente relacionada a atividades humanas. Na Amazônia, uma das maiores ameaças é o garimpo ilegal, que utiliza o mercúrio na extração de ouro, ocasionando a contaminação direta de rios, peixes e outros organismos. Há riscos para as pessoas? Mercúrio é encontrado em penas de urubu-de-cabeça-vermelha na Amazônia Nailson de Andrade Neri Júnior Segundo o pesquisador, o risco é real. Na Amazônia, a principal via de exposição humana ao mercúrio ocorre por meio do consumo frequente de peixes contaminados com metilmercúrio, a forma mais tóxica do elemento. Comunidades fortemente dependentes da pesca para alimentação podem apresentar níveis elevados do contaminante no corpo, especialmente em áreas impactadas pela mineração. Em 2022, uma pesquisa da Fiocruz, em colaboração com o Instituto Evandro Chagas e a Universidade Federal de Roraima (UFRR), identificou contaminação por mercúrio em peixes da Bacia do Rio Branco (RR). Como o pescado é a base proteica da população local, os pesquisadores alertaram para os riscos à saúde, com foco especial em crianças e mulheres em idade fértil, o que corrobora a preocupação atual do estudo com as aves. Por isso, os cientistas defendem que o monitoramento contínuo da fauna e dos ambientes naturais é essencial. A ação integra a abordagem de Saúde Única (One Health), conceito que conecta a saúde humana, animal e ambiental. Próximos passos O trabalho encontra-se em suas fases iniciais, mas a equipe planeja submeter o estudo completo para publicação científica ainda este ano. Os pesquisadores também pretendem expandir as coletas para outros municípios da Amazônia. A expansão deverá ajudar a identificar padrões de contaminação e a compreender com mais clareza a distribuição do mercúrio na região Norte do país. *Sob supervisão de Rodrigo Peronti.

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