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Entenda o que é agricultura regenerativa e por que técnica é aposta para o futuro do café

Agricultura regenerativa pode garantir futuro do café no planeta; entenda Os cinco maiores países produtores de café do mundo tiveram, em média, 144 dias co...

Entenda o que é agricultura regenerativa e por que técnica é aposta para o futuro do café
Entenda o que é agricultura regenerativa e por que técnica é aposta para o futuro do café (Foto: Reprodução)

Agricultura regenerativa pode garantir futuro do café no planeta; entenda Os cinco maiores países produtores de café do mundo tiveram, em média, 144 dias com temperaturas acima dos 30ºC nos últimos cinco anos, aponta um estudo recente da organização internacional Climate Central. A lista inclui o Brasil, que responde por quase 40% de todo o grão produzido no planeta. ☕Dados como esses evidenciam um cenário cada vez mais desafiador para a cafeicultura e são um dos motivos que impulsionam dúvidas sobre o futuro de uma das bebidas mais consumidas pela humanidade. Em território brasileiro, iniciativas voltadas para a agricultura regenerativa prometem dar uma resposta para as mudanças climáticas, com uma combinação de cuidados com a saúde do solo, equilíbrio biológico e redução de insumos químicos na lavoura. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp "A agricultura regenerativa traz segurança quando a gente olha para o futuro do café sobre várias perspectivas. Sobre um olhar de produção, tem um modelo que tem como objetivo principal regenerar o solo e reequilibrar o ecossistema, nos permite estar bem mais preparados para qualquer desafio que a agricultura possa enfrentar atualmente ou nos próximos anos", afirma a cafeicultora Gabriela Vieira, que implementa técnicas sustentáveis com o marido Guilherme Vicentinni em uma fazenda centenária de Altinópolis (SP). O que vai acontecer com o café nos próximos 100 anos é um dos temas que Gabriela, Guilherme e outros especialistas apresentam durante a sexta edição da Alta Café, uma das principais feiras de negócios voltados para o mercado cafeeiro que acontece em Franca (SP), na Alta Mogiana Paulista, até quinta-feira (26). Produção de café em fazenda centenária de Altinópolis (SP) utiliza métodos sustentáveis como consórcio com mogno africano.. Divulgação/Fazenda Liberdade Além da troca de conhecimento com palestras e workshops e da exposição de inovações e tecnologias, os organizadores esperam movimentar mais de R$ 260 milhões em negócios no evento. A abertura aconteceu na terça-feira (24), com a presença do vice-governador Felício Ramuth. A seguir, entenda os impactos das mudanças climáticas no café e como a agricultura regenerativa pode ser uma aliada: O aquecimento global e os riscos para a cafeicultura De acordo com o levantamento da Climate Central, entre 2021 e 2025 o Brasil teve, por ano, 187 dias de calor extremo, 70 a mais do que o avaliado antes disso. Em regiões produtoras importantes, como o estado de São Paulo, foram 75 dias a mais. ☀️O calor extremo é um dos fatores atrelados às mudanças climáticas que dificultam a produção de café, principalmente o da espécie arábica. As chuvas excessivas e fora de época também representam um problema de produtividade e uma maior incidência de doenças na lavoura, explica o cafeicultor Guilherme Vicentinni, da Fazenda Liberdade, em Altinópolis (SP). "Geadas, chuva de granizo e até mesmo veranicos têm sido bastante recorrentes nesses últimos anos. O que acontece é que, em determinado momento, uma chuva prolongada com uma umidade alta acaba favorecendo o desenvolvimento de determinadas doenças no café. A depender do veranico prolongado acaba interferindo também no ciclo de alguns insetos, favorecendo ali o desenvolvimento e até o ataque de determinadas pragas", explica. Café produzido na Fazenda Liberdade, em Altinópolis (SP). Divulgação/Fazenda Liberdade 🌱Como resposta, os agricultores precisam melhorar a adubação e as medidas fitossanitárias, ou seja, de saúde das plantas. Como consequência, a produção na lavoura vai ficando mais cara, o que também passa a ser percebido pelos consumidores. "Estamos falando de um impacto direto na questão de insumos, uma mudança, um aumento na questão dos insumos para poder levar para a planta essa resiliência, esse preparo que ela precisa para lidar com tudo isso." LEIA TAMBÉM Raízen: pedido de recuperação extrajudicial acende alerta para produtores de cana às vésperas da nova safra Tereos anuncia venda da Usina Andrade, em Pitangueiras, SP Como o acordo UE-Mercosul deve beneficiar produtores da região de Ribeirão Preto O que é a agricultura regenerativa? Apontada como uma das soluções sustentáveis para as mudanças climáticas, a agricultura regenerativa é uma modalidade que visa a regeneração do solo e manter a alta produtividade a longo prazo. Segundo Vicentini, ela resulta de uma série de práticas que foram se disseminando ao longo das décadas, inclusive por grandes empresas, visando a diversidade de espécies, o equilíbrio e uma melhor estrutura do solo para ampliar a qualidade dos produtos agrícolas. Fazenda Liberdade, com produção de café baseada em agricultura regenerativa. Divulgação/Fazenda Liberdade "Existia uma vida nesse solo que estava sendo pouco explorada, como a parte biológica, a questão de microrganismos, fungos e bactérias coexistindo, fazendo uma diferença significativa", diz. Segundo o cafeicultor, a agricultura regenerativa tem como princípio a visão do sistema como um todo de modo a enxergar possíveis fontes de desequilíbrio. "Em outras palavras, seria como a gente olhar para pragas e doenças na cafeicultura e entendê-las como sendo um sintoma. Atrás desse sintoma existe alguma brecha, algum desequilíbrio abrindo oportunidade para esses danos econômicos que a gente intitula de pragas e doenças. Então, se a gente olhar dessa maneira, a gente vai entender que o foco tá na saúde do solo." Entre as práticas mais comuns associadas estão o uso de matéria orgânica e de fontes biológicas de enriquecimento do solo, bem como de plantas de cobertura, ou seja, semeadas em períodos de entressafra. "A gente está falando de uma rotação de espécies dentro de um sistema para poder ajudar no reequilíbrio. Uma vez que a gente entende que a agricultura moderna, ela tá baseada em latifúndio e monocultura. Então, a gente precisa equilibrar isso de alguma maneira." Pátio de compostagem, uma das técnicas associadas à agricultura regenerativa no café Divulgação/Fazenda Liberdade Como a agricultura regenerativa é aplicada ao café? Segundo especialistas, a agricultura regenerativa voltada para o café tem práticas como o consórcio, ou seja, do cultivo simultâneo de diferentes espécies no mesmo terreno - como o plantio de árvores no cafezal. Outro aspecto importante é a redução de insumos químicos para a proteção e o controle de pragas. "Poderíamos usar o químico de uma maneira consciente, apenas como corretivo. Significa que uma vez que algum descontrole aconteceu e que se está correndo risco econômico na lavoura, a gente entra com um químico para combater isso, mas de outra maneira a gente trata ou traz o biológico ali para restaurar o equilíbrio e se tornar um agente protetivo." 📈A confirmação de que essas práticas estão realmente funcionando vem por meio de um constante monitoramento de variáveis comparadas ano após ano como o índice de compactação do solo, a análise biológica do solo e, claro, a produtividade, a qualidade do café colhido e os custos de produção. A presença de "amigos naturais" como aranhas e alguns tipos de fungos e bactérias, não considerados patógenos, pode representar um bom sinal, segundo Vicentini, enquanto resquícios de agentes químicos são compreendidos como negativos. "Tudo isso acaba trazendo uma harmonia, um reequilíbrio. A gente faz análises, por exemplo, nos grãos para entender os índices de contaminação, se está reduzindo. Algumas moléculas químicas têm efeito cumulativo. Então, mesmo que a gente tenha parado de usar, ainda se tem o efeito no solo sendo disponibilizado. A gente vai analisando de uma maneira diferente e traçando soluções integrativas para restaurar o equilíbrio do sistema." Atenção à saúde do solo é um dos pilares da agricultura regenerativa. Divulgação/Fazenda Liberdade A agricultura regenerativa e o futuro do café Para Vicentini, a agricultura regenerativa tem resultado em elevados índices de produtividade, por exemplo, em produções com restrição de água, o que indica um caminho para o futuro, marcado ao mesmo tempo por incertezas climáticas e pela certeza de que o café continuará sendo uma bebida altamente demandada. Segundo ele, tudo depende da postura dos produtores em aceitar se adequar e abandonar velhas práticas. "Se a gente passa para analisar também que a demanda do mercado está aumentando sobre o café, eu diria que o futuro do café está garantido. O produtor terá a opção de entrar nessa senda pelo amor, ou seja, expandindo o olhar dele sobre essas novas práticas ou será pela dor, uma vez que os resultados dele irão mostrar uma necessidade de atualização das práticas, das técnicas desde a gestão até o manejo." Para Gabriela Vieira, a modalidade não só é uma aliada para elevar a produtividade como também para fazer frente a outras demandas de uma sociedade que busca ser cada vez mais sustentável. "É bacana também gente observar uma perspectiva de cadeia e não somente produção. É interessante ver que não só a natureza, mas a cadeia como um todo vem exigindo esse movimento de mudança. A gente vai de forma ao encontro do que o consumidor final está buscando. A gente tem observado cada vez mais a exigência do consumidor final em saber como que esse café foi produzido da porteira para dentro, em termos ambientais, em termos sociais. Todo esse movimento que começa no campo também reflete na xícara como parte da experiência do produto", analisa. Alta Café, feira especializada em mercado cafeeiro que acontece em Franca, na Alta Mogiana Paulista. Divulgação/ Alta Café Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca