Ciúmes, acordos e liberdade: casais do interior de SP contam como vivem relações não-monogâmicas: 'Tudo funciona na base da conversa'

Dia dos Namorados: psicóloga explica que a não-monogamia pode ser um ato político "O que é não monogamia?", "Como saber se sou não monogâmico?" e "Como a...

Ciúmes, acordos e liberdade: casais do interior de SP contam como vivem relações não-monogâmicas: 'Tudo funciona na base da conversa'
Ciúmes, acordos e liberdade: casais do interior de SP contam como vivem relações não-monogâmicas: 'Tudo funciona na base da conversa' (Foto: Reprodução)

Dia dos Namorados: psicóloga explica que a não-monogamia pode ser um ato político "O que é não monogamia?", "Como saber se sou não monogâmico?" e "Como aceitar um relacionamento não monogâmico?" estão entre as dúvidas mais pesquisadas por usuários na internet. Também são frequentes os questionamentos sobre as diferenças entre a não monogamia e a poligamia, conceitos que costumam ser confundidos. A ideia de encontrar um único parceiro para construir uma família está presente em muitas sociedades há séculos, mas nem sempre esse foi o modelo predominante. Relacionamentos com mais de uma pessoa existem desde a Antiguidade e possuem registros históricos em diferentes culturas, incluindo povos pré-colombianos, sociedades do Oriente Médio e algumas comunidades indígenas brasileiras. Há quem condene, quem enxergue a prática como uma escolha legítima do casal e quem viva, na prática, relacionamentos não monogâmicos. No Dia dos Namorados, celebrado nesta quinta-feira (12), o g1 conversou com casais heteroafetivos e homoafetivos de Boituva (SP) que compartilham suas experiências. Laura [nome fictício] está vivendo a experiência de um romance não-monogâmico pela primeira vez. Ela está junto de Luís [nome fictício] há cerca de um ano e três meses, seis meses depois de ter saído de um relacionamento convencional com outra pessoa. "Eu conheci o Luís um mês depois de ter terminado com o meu ex e começamos seis meses depois. Ele é bem mais velho que eu e já era uma pessoa não-monogâmica, então, foi ele quem me apresentou a esse mundo. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento que eu havia terminado sem ter motivos para terminar com um homem bom. A parte afetiva era sempre só comigo e, no fim, a ideia de só poder me relacionar com uma só pessoa me pegava um pouco", diz. Mesmo tendo curiosidade com a ideia de se envolver com mais de uma pessoa, Laura confessa que não reagiu bem quando foi apresentada ao conceito de não-monogamia pela primeira vez. No começo, ela acreditou que o modelo não funcionaria para o casal e a pauta foi até motivo de discussão entre ela e Luís. "De primeira, eu acabei brigando com ele. Disse que não dava e não ia funcionar de jeito nenhum. Mas, ele não ficou tentando me convencer - o Luís só me apresentou um livro chamando 'Descolonizando Afetos', de Geni Nuñez. Por fim, eu acabei achando muito interessante e 'devorei' o livro", lembra. Durante a leitura do livro, Laura conta que ficou muito reflexiva sobre a ideia que a escritora indígena propõe, sobre "imaginar outros mundos possíveis". Foi a partir desta filosofia que ela topou entrar em um relacionamento não-monogâmico com Luís, que segue até hoje. "Foi aí que começamos a namorar. Ele já queria estar em uma não-monogamia mais radical, de já presumir que não teriam rótulos envolvendo a relação, praticando uma não-hierarquização. Mas eu falei a ele que ia ficar muito difícil de sustentar logo de cara", explica. Casal de mãos dadas Pexels/Reprodução 'Tudo funciona na base da conversa' Na visão de Laura, um dos principais pontos da não-monogamia é o estabelecimento de limites na vida a dois. Ela confessa estar feliz e satisfeita no relacionamento, mas não totalmente acostumada ao modelo de romance escolhido. "Ainda existem coisas que são muito difíceis para mim. Percebo nesse um ano que, enquanto vamos nos aprofundamos nos laços, vai ficando mais difícil de sustentar. Se relacionar não-monogamicamente é uma escolha que é contestada o tempo todo. Tem que ter uma postura ativa dentro do relacionamento, porque, senão, acaba caindo na monogamia. E o desafio é justamente esse: de tentar fugir da norma", diz. "Mas, é necessário ter cuidado. Se você tentar fugir dessa norma sem conversar, sem cuidado, sem nada, somente pelo fato de ser livre, acaba machucando. E essa não é a intenção. Também é necessário entender que, às vezes, é um limite da pessoa e ela precisa expor a própria vontade. Tudo funciona na base da conversa, mas não é dessa forma radical que as pessoas pensam, demonizando o casamento. Eu não curto isso", completa. Ao g1, a jovem opina que enxerga a não-monogamia como uma "faca de dois gumes". Ela não vê como um mar de rosas, mas, também, enxerga características muito bonitas, que não podem ser vistas em um relacionamento monogâmico. "É algo muito importante de ser pontuado. Existe esse lado bonito de preocupação pela liberdade e pelo amor do outro, porque ele também tem que ser cuidado. Mas não é um mar de rosas. É muito difícil ter que encarar o próprio ego. Os relacionamentos monogâmicos têm ciúmes por coisas menores, mas existe aquele ciúmes que a gente tem desde criança. São grandes dificuldades", conta. A moradora de Boituva comenta que muitas pessoas costumam relacionar a não-monogamia com a poligamia como se fossem termos semelhantes. Na verdade, segundo ela, a terminologia está errada e ambos possuem características bem distintas. "A poligamia é o contrário da monogamia. Existe o casal principal e pessoas que elas se relacionam de forma secundária. Existe essa multiplicidade dos vínculos e eles são repetidos na mesma estrutura monogâmica. A monogamia é presumir certas exclusividades e o controle pela liberdade do outro", explica. "Já a não-monogamia tem aquele lugar de cuidado, de comunidade que eu já citei anteriormente. É possível ser uma pessoa não-monogâmica que se relaciona apenas com uma pessoa, mas com espaço para outros vínculos na vida. A estrutura monogâmica fala para você que o lugar romântico é o principal na vida, e a não-monogamia diz exatamente o contrário. Nós podemos dar lugar para os amigos, para a família e para nós mesmos", complementa. 💔 Medo de enfrentar o novo É a primeira vez que Isadora vive um relacionamento não-monogâmico Arquivo pessoal Ketillin Pires e Isadora Lisboa também moram em Boituva e formam um casal homoafetivo há cerca de um ano e meio. A situação delas é semelhante ao caso de Laura e Luís. "Quando conheci a Ketillin, eu era uma pessoa monogâmica e que tinha passado por relacionamentos 'tradicionais' anteriormente. Fiquei meio em dúvida quando ela me apresentou a pauta pela primeira vez, mas eu acreditava e confiava. Não há pessoas que vivam desta forma no interior. Eu gostava dela e queria colocar em prática", relembra Isadora. Ketillin, que é pedagoga, começou a se entender como adepta e praticamente do modelo de relacionamento há cerca de seis anos. Para ela, a ideia de ter um vínculo afetivo com outra pessoa, sem uma barreira para se relacionar com outras, faz muito sentido. "A primeira coisa que me fez desconstruir a ideia da monogamia na minha cabeça foi a individualidade. Se eu estou completamente apaixonada por alguém e viajo a Paris, eu não vou poder me envolver com um parisiense? Esse pensamento começou a se formar na minha cabeça e, em 2023, em outro relacionamento, foi proposto que abríssemos. Foi perfeito, porque eu já gostaria de viver isso", relata. O casal afirma que passou por intercorrências durante o relacionamento e precisou conversar para estabelecer os limites e vontades próprias. De acordo com Isadora, a insegurança ainda predominava, devido ao "medo de descobrir o novo". "Eu tinha muitas inseguranças e práticas consideradas monogâmicas, já que era a minha primeira vez vivendo tudo isso. Precisamos sentar e conversar diversas vezes. Eu falava que estava insegura com algo, mas percebia que era uma insegurança relacionada a mim. Às vezes, é necessário reafirmar nossas decisões e o que queremos. Existem coisas que podem ser feitas de formas separadas", comenta Isadora. Isadora e Ketillin vivem um relacionamento não-monogâmico Arquivo pessoal A pedagoga comenta que tem percebido uma movimentação maior nas redes sociais a favor da não-monogamia. Para ela, isso acontece porque as pessoas têm percebido, a cada dia, que são livres para serem quem elas realmente gostariam de ser. "A não-monogamia está sendo mais falada da mesma forma que a discussão sobre orientação sexual começou a ser lá atrás. A liberdade está acontecendo e o discurso de que elas podem ser quem elas quiserem também. É uma pauta que abriu lugar para as pessoas poderem falar sobre as formas que elas acreditam e podem se relacionar", descreve. LEIA TAMBÉM: Se for combinado, não é traição: saiba o que é o cuckold, fetiche voltado ao prazer de ver o parceiro com outra pessoa Celebrando 10 anos de carreira, Gloria Groove fala sobre 'furar a bolha' LGBTQIA+ e diz que sucesso vem de 'seguir o coração' Diretora travesti atua há quase 30 anos na educação infantil de Avaré e fala sobre combate ao preconceito: 'Escola é lugar de transformar a sociedade' No entanto, apesar de falarem sobre o assunto abertamente, Isadora e Ketillin costumam dar detalhes sobre o relacionamento apenas às pessoas com quem elas possuem intimidade. O medo de julgamentos, infelizmente, ainda prevalece em ambientes específicos, como o trabalho ou com pessoas mais velhas. "Foi uma coisa que eu falei com as pessoas aos poucos e é realmente como se fosse uma afirmação social. Não há como saber quando vou ser bem recebida ou não nos lugares. Se a pessoa pensa algo ruim, ela já fala de forma conservadora, de posse, de ciúme. Quem é de outra geração e tem idade mais avançada pensa assim. Também evito falar para pessoas que transparecem que serão contra ou para figuras de poder, como um chefe ou algo assim. Não sabemos o que as pessoas pensam e acabo tendo que me explicar muito", diz Isadora. Ketillin compartilha da mesma ideia de Isadora. No entanto, ela é um pouco mais aberta quanto ao assunto, comentando sobre o relacionamento com a família. "Sempre falo sobre a não-monogamia no relacionamento com a minha mãe e eu sempre fui bem aceita. Já comentei com chefes, mas foi uma situação mais chata. Fica uma coisa mais desagradável. Você tem que pensar se vai 'brigar' com isso, se vai reforçar a sua identidade e o que você é", finaliza. 🔍 A psicologia explica? A psicóloga Alanis Zaminelli, de Itapeva (SP), explicou ao g1 que, a partir dos fundamentos da psicologia e da escuta humanizada, é natural evitar colocar as experiências em "caixas". Porém, há uma diferença fundamental nas intenções entre "relacionamento aberto" e "não-monogamia consensual". "O relacionamento aberto é onde o casal permite interações físicas e românticas externas, mantendo a estrutura tradicional do casal como único eixo de validação. A monogamia não-consensual vai além: ela é uma contesteação da própria estrutura de posse. É a compreensão de que o amor, o vínculo, o afeto e a conexão não precisam ser centralizados em uma única pessoa. A psicologia não busca um diagnóstico ou padrão, mas sim um movimento em direção à autenticidade e ao autoconhecimento", analisa. Segundo Alanis, o ponto comum para as pessoas que migram à não-monogamia é o desejo de individualidade e a busca por congruência, sendo uma necessidade interna de que os relacionamentos reflitam quem as pessoas realmente são, e não o que a sociedade espera delas. "É um movimento de pessoas que valorizam a transparência radical e estão dispostas a questionar as formas sociais para viverem as próprias verdades", afirma. Na visão da profissional, o modelo de relacionamento é um "profundo exercício de autoconhecimento". Ele pode vir acompanhado de uma carga mental significativo e, se fosse um contrato, seria escrito à mão e revisado constantemente. Assista ao vídeo no início da reportagem. "Na monogamia, o contrato já vem pronto da prateleira social. Na não-monogamia, não. Ele é revisado linha por linha e isso exige uma alfabetização emocional que a nossa cultura não nos ensina. Não tem receita de bolo. Somos indivíduos únicos, com particularidades, traumas e histórias de vida distintas. O que para uma parceria é um acordo libertador, para outra pode ser uma fonte de exaustão", pontua. Alanis Zaminelli é psicóloga em Itapeva (SP) Arquivo pessoal "A comunicação constante pode ser interpretada como uma carga mental se o casal tentar atingir um ideal de 'perfeição comunicativa'. Mas, quando encarada com autocompaixão, ela se torna uma ferramenta de cuidado, onde o tempo e o ritmo de cada indivíduo dentro daquela relação são respeitados", acrescenta. A psicóloga ainda reforça que a questão do ciúme é humana: ele não deixa de existir na não-monogamia e, sim, devolve para a pessoa como um sinalizador interno. Nos modelos convencionais, o sentimento é ligado à perda, à rejeição e ao instinto de apego. "O ciúme frequentemente justifica o controle sobre o outro. Na não-monogamia, esse sentimento é acolhido com curiosidade e responsabilidade. Em vez de apontar o dedo para o parceiro e dizer 'você não pode fazer isso', a pessoa é convidada a refletir internamente e perguntar 'o que a dor está dizendo sobre as minhas próprias inseguranças?'. Ele deixa de ser uma ferramenta de poder e vira um termômetro de autocuidado", descreve. A forma de se relacionar, conforme Alanis, vai além de uma escolha pessoal: é um ato político. As decisões íntimas costumam ser escolhidas à base das regras moldadas pela sociedade, gerando, inclusive, o que ela chama de "monogamia compulsória". "É uma estrutura que serve à manutenção da propriedade privada, da herança e do controle dos corpos. Quando um casal decide, de forma consciente, romper com essa engrenagem, eles estão contestando a ideia de que o amor deve ser baseado na posse, na exclusividade e na validação do Estado ou da Igreja. É um ato político porque subverte a norma do casal comercial e da 'família tradicional' como as únicas formas legítimas de viver em sociedade e de construir redes de afeto", reforça. Para as mulheres, a monogamia historicamente funcionou como um mecanismo de controle da sexualidade e da capacidade produtiva, de acordo com a psicóloga. Quando uma mulher se apropria do desejo e escolhe a não-monogamia, ela está, psicologicamente falando, quebrando séculos de um roteiro patriarcal que a condicionou ao desejo de um único homem. "É um resgate profundo do prazer. Para a comunidade LGBTQIA+, a emancipação é ainda mais visceral, já que eles precisaram romper com a norma imposta pela sociedade somente por existir. Para muitos, tentar se encaixar no modelo tradicional parece uma violência contra a própria trajetória. A não-monogamia oferece a essas pessoas a liberdade de desenhar relações que façam sentido para as suas realidades, que, muitas vezes, são plurais e marginalizadas, permitindo que o afeto seja um espaço de revolução", diz. Alanis prossegue dizendo que, na verdade, o Dia dos Namorados funciona como um um holofote social, que reforça a legitimidade de apenas um único tipo de afeto. Isso, inevitavelmente, acaba reverberando no psicológico de quem vive relações plurais. "Existe, sim, em muitos momentos, um sentimento de exclusão, invisibilidade, ou o que chamamos de 'luto não reconhecido', que é a sensação de que suas parcerias e celebrações não têm validade ou espaço no mundo público. Para quem está começando a transição para a não-monogamia, a data pode engatilhar comparações, inseguranças antigas e a sensação de não pertencer", descreve. "Alguns casais optam por ignorar a data e celebrar o amor ou afeto em dias alternativos, evitando o apelo comercial e as filas nos restaurantes. Outros dividem o tempo de forma criativa, celebram em jantares coletivos onde todos os parceiros se reúnem, ou usam o momento para celebrar a amizade e o autocuidado. A beleza da não-monogamia está em entender que o ritual deve servir às pessoas da relação, e não as pessoas servirem ao roteiro de uma data comercial", finaliza. Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

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