'Após um burnout, larguei carreira de 20 anos em TI para viajar o Brasil e dançar forró'
Depois de uma crise burnout, a paulistana Priscila Albuquerque, 42, decidiu deixar seu emprego e dedicar dois anos a fazer as coisas de que mais gosta Arquivo p...
Depois de uma crise burnout, a paulistana Priscila Albuquerque, 42, decidiu deixar seu emprego e dedicar dois anos a fazer as coisas de que mais gosta Arquivo pessoal/Via BBC "Eu já tinha esse plano de conhecer o Brasil, conhecer o mundo, viajar, mas o trabalho sempre deixa a gente um pouco preso. Tive um burnout no trabalho depois de uma mudança de gestão, algumas coisas aconteceram, e foi quando resolvi vender meu apartamento e ir atrás desse sonho." 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 A paulistana Priscila Albuquerque, de 42 anos, está vivendo não apenas o seu sonho, mas o de muitos trabalhadores brasileiros. Desde junho do ano passado, ela largou um emprego estável na área de tecnologia da informação (TI), após 20 anos trabalhando com tecnologia bancária, e decidiu dedicar pelo menos dois anos a fazer as coisas de que mais gosta: viajar, fazer trilhas em meio à natureza, e dançar forró. Ela tomou essa decisão após sofrer uma crise de burnout, esgotamento laboral em resposta a estresse crônico causado pelo ambiente de trabalho. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Este problema de saúde mental tem se tornado mais frequente no Brasil. Em 2024, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) concedeu um recorde de 3.359 benefícios a trabalhadores diagnosticados com síndrome de burnout, quase três vezes aqueles concedidos no ano anterior (1.153), segundo dados disponibilizados pela autarquia via Lei de Acesso à Informação (LAI). Quando passou pelo burnout, Priscila conta que se consultou com psicólogo e psiquiatra, e decidiu pedir afastamento do trabalho, usando uma possibilidade da empresa onde ela trabalha de se afastar por dois anos sem remuneração. 'Vendi apartamento e todos os meus móveis' Como ficaria sem salário, a decisão não foi tomada de forma impulsiva, mas planejada, diz ela. "Tive que me organizar: vendi o apartamento, vendi todos os meus móveis, levei as coisas que eu ainda guardo para a casa da minha mãe e aí eu comecei a viajar", afirma. "Foquei em fazer as coisas que eu mais gostava: conhecer pessoas, andar nas trilhas, no mato, e dançar forró." Priscila dançando forró, ela veste short jeans e blusinha preta, enquanto seu par veste uma regata preta e bermuda Arquivo pessoal Com família nordestina, o forró a acompanha desde a infância. "Minha mãe é pernambucana e sempre foi apaixonada por forró, então, desde pequenininha, ela me pegava para dançar — desde que eu lembro, eu danço forró", conta. Assim, voltar-se para o forró em um momento de dificuldade foi para ela um lugar de conforto e de aconchego, relata Priscila. "Eu gosto muito de outros ritmos musicais também, frequento o samba e outras batidas, mas o público que frequenta o forró é muito acolhedor", afirma. "Você pode ir sozinho para o forró, que você vai fazer amizade. Como mulher, às vezes é difícil sair para a noite sozinha, e para o forró você não precisa estar acompanhada, porque você vai estar dançando, interagindo com as pessoas." Priscila conta que começou a viajar de carro alugado, mas logo percebeu que isso tornava a viagem muito cara. Então, após cerca de três meses, ajustou seus planos, e passou a viajar de ônibus, como uma forma de tornar a viagem mais barata. Ela conta que viajar sozinha, como mulher, exige algumas estratégias. "A gente vai desenvolvendo mecanismos durante o caminho. Por exemplo, não vou chegar numa cidade nova de noite." O meio de transporte também é algo que demanda atenção. "Como mulher, você se preocupa sempre com como vai viajar — se está pegando um ônibus, o BlaBlaCar [aplicativo de caronas para viagens], um Uber. São processos que a mulher sempre tem que estar um pouco mais preocupada, especialmente nas cidades muito grandes, onde sempre tem alguém querendo tirar vantagem." Um antídoto para a vida corrida Desde que começou sua jornada, em junho do ano passado, Priscila já passou pelo interior de São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Sergipe, Alagoas e Pernambuco, e segue na estrada, acompanhando o calendário dos mais tradicionais festivais de forró do país. "O forró no Brasil tem um calendário de festivais muito extenso, tanto no Sudeste quanto em outros Estados. Então fui me organizando em relação às datas e lugares, para poder pegar os festivais, sair de um e dar tempo de chegar no outro." "Já foram 12 ou 13 festivais", calcula, citando eventos como Nata Forrozeira, Buraco do Tatu, Malagueta, Beijo Me Liga e destinos conhecidos dos amantes do forró, como Itaúnas (ES), Caraíva e Cumuruxatiba (BA), Aldeia Velha (RJ) e Ilhabela (SP). "A viagem para mim é como um antídoto para essa vida corrida que a gente leva. Como um momento de retorno a si mesmo para poder continuar dando conta", reflete. "Eu acredito que essa parada — até quando você consegue dar uma quebradinha na rotina, seja por algumas horas, alguns dias, algumas semanas —, ela traz esse momento de quebra, onde você se observa, onde você se olha de outra maneira." Quanto à volta ao trabalho, Priscila agora avalia se de fato vai retornar para a área de TI ou se buscará algo mais alinhado com seu novo momento. Para quem sonha em dar um tempo no trabalho, para correr atrás dos próprios sonhos, ela reforça que é importante se planejar. "Começar uma coisa nova tem muito a ver com viver esse momento presente, com parar de viver na ansiedade do que eu estou conquistando, do que eu estou buscando. Parar de viver deprimido com o que eu tive e não tenho mais", reflete. "Foi isso que me trouxe essa decisão, essa coragem para me organizar e não tomar uma atitude impulsiva — porque eu me organizei durante meses para ter dinheiro para não passar tanto perrengue. Então, eu diria: se planeje, mas viva o agora."