Após polêmica com grupos de samba, Olinda regulamenta desfile de agremiações, mas permite carros de som e ignora cordões de isolamento
Grupo Sambadeiras com 'paredão' de som em cima de carro, nas ladeiras do Sítio Histórico de Olinda Rafael Medeiros/g1 Após uma série de polêmicas envolven...
Grupo Sambadeiras com 'paredão' de som em cima de carro, nas ladeiras do Sítio Histórico de Olinda Rafael Medeiros/g1 Após uma série de polêmicas envolvendo grupos de samba e a utilização de "paredões" e carros de som no Sítio Histórico de Olinda, a prefeitura publicou um decreto nesta quarta-feira (11), véspera da abertura oficial do carnaval, regulamentando a utilização de equipamentos sonoros no período carnavalesco de 2026. O decreto determina multa de R$ 10 mil para grupos que impedirem ou dificultarem a passagem de agremiações como troças, blocos de frevo, maracatus e afoxés. Entretanto, segue permitindo a utilização de carros de som no Sítio Histórico, e ignora os cordões de isolamento usados pelas baterias, prática criticada por músicos e representantes de blocos tradicionais da cidade. ✅ Receba as notícias do g1 PE no WhatsApp O assunto veio à tona recentemente após declarações dos maestros de algumas das principais orquestras de frevo que tocam na cidade. Na visão desses regentes, que trabalham há décadas no carnaval, a passagem de grupos com carros de som e cordões de isolamento atrapalha a mobilidade e traz risco à segurança das pessoas que se espremem nas ladeiras e ruas estreitas do Sítio Histórico. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Eles dizem que as agremiações e os camarotes que usam som mecânico descumprem a Lei Municipal 5455/2005, que proíbe o uso de veículos automotores com caixas ou aparelhagens, em volumes acima de 60 decibéis de manhã, 65 à tarde e 50 à noite, em áreas residenciais. A Associação das Agremiações de Frevo de Olinda divulgou uma carta aberta na terça-feira (10) sobre as baterias amplificada de samba. "A crescente presença de baterias de samba com paredões de som de alta potência, além de descaracterizar o ambiente sonoro do carnaval olindense, interfere diretamente no desfile das agremiações tradicionais", diz o comunicado. Também repercutiu a necessidade de ordenamento das agremiações no Sítio Histórico, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e reconhecido como patrimônio mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Diante da polêmica, um dos grupos de samba que desfilam na região, a Bateria Cabulosa, anunciou que realizaria o desfile na parte baixa da cidade, para "evitar embates e transtornos" e em respeito à cultura e valorização do carnaval "em todas as suas expressões". O decreto Conforme o decreto, para a utilização de "equipamentos móveis de sonorização", é preciso autorização prévia da prefeitura, e a permissão poderá ser suspensa ou cassada a qualquer momento em caso de descumprimento da norma. Esse pedido pode ser feito até a sexta-feira (13). O documento afirma, ainda, que as "passarelas naturais da folia" destinam-se prioritariamente à circulação contínua das pessoas e, de modo especial, das agremiações tradicionais do carnaval, que são grupos de frevo, maracatus, afoxés e demais expressões reconhecidas como estruturantes da identidade cultural do município. Segundo o decreto, os equipamentos de som não poderão: Impedir, retardar ou dificultar a evolução das agremiações tradicionais; Comprometer a fluidez da circulação nas passarelas naturais; Gerar obstrução física ou sonora incompatível com a preservação do caráter tradicional da festa. O decreto também diz que, sempre que houver aproximação ou circulação de agremiação tradicional, o grupo que utilizar equipamentos é obrigado a reduzir o volume do som, além de interromper temporariamente amplificação sonora "quando necessário e quando solicitado pelos agentes de fiscalização". Esses grupos também deverão manter, ao menos, 50 metros de distância de equipamentos de diferentes agremiações, "evitando sobreposição e poluição sonora". A nova norma permite até mesmo a utilização de carros para o transporte dos paredões, se tiver devidamente licenciado e for conduzido por pessoa habilitada. O automóvel deve trafegar em velocidade até 10 quilômetros por hora. É proibido que pessoas subam, permaneçam ou circulem sobre o veículo, ou sobre a estrutura sonora. Também é proibido o uso de fogos de artifício, artefatos pirotécnicos ou similares, bem como paradas prolongadas ao longo do percurso. Críticas O maestro Oséas Leão, que comanda uma das orquestras mais requisitadas de Olinda e foi homenageado do carnaval da cidade em 2023, disse que já sofreu atrasos por causa dos "paredões" das baterias. De acordo com o músico, essa disputa por espaço limita a circulação das troças de frevo no Sítio Histórico. O maestro Lúcio Henrique, do Grêmio Musical Henrique Dias, disse que também já foi prejudicado e teme que o uso da estrutura com carros de som e equipamentos eletrônicos cause acidentes. Além disso, as paradas que os blocos fazem em pontos estratégicos dentro do Sítio Histórico prejudicam os outros desfiles. O músico contou que já precisou interromper e mudar, em duas ocasiões, o percurso de um bloco por "choques" com baterias de samba. A dificuldade se agrava, considerando a pouca quantidade de orquestras para um número grande de blocos. Isso torna a rotina dos músicos durante o carnaval uma verdadeira maratona, subindo e descendo ladeiras entre os desfiles das troças, como contou outro baluarte das orquestras de frevo, o maestro Carlos Rodrigues. Outro maestro que relatou ter sofrido atrasos por dificuldade de sair com um bloco foi Risonaldo Verçosa. Além dos "paredões" de som, outro obstáculo, segundo ele, são os carros estacionados em lugares por onde as troças passam. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias