Professor que nasceu cego supera barreiras e forma educadores em Ribeirão Preto, SP

Professor que nasceu cego supera barreiras e forma educadores em Ribeirão Preto, SP Depois de estudar em uma escola que não estava preparada para receber estu...

Professor que nasceu cego supera barreiras e forma educadores em Ribeirão Preto, SP
Professor que nasceu cego supera barreiras e forma educadores em Ribeirão Preto, SP (Foto: Reprodução)

Professor que nasceu cego supera barreiras e forma educadores em Ribeirão Preto, SP Depois de estudar em uma escola que não estava preparada para receber estudantes com deficiência, Fábio Deodato, que nasceu cego, escolheu dedicar a vida à educação especial. Ele se tornou professor e hoje, aos 43 anos, forma 150 docentes que serão responsáveis pelo atendimento de cerca de 1,9 mil alunos com deficiência da rede municipal de Ribeirão Preto (SP). Ao g1, Fábio contou que, ao longo da vida, se deparou com professores que duvidavam da capacidade dele de aprender e as dificuldades enfrentadas na escola influenciaram na escolha da profissão. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp "Desde muito novo, fiquei pensando no que eu faria para mudar esse contexto. Para libertar a minha mente desse cárcere capacitista que a sociedade já impunha, eu precisava estudar." Aos 6 anos, durante uma gravação realizada na escola para um jornal local, ele disse que queria ensinar braile para que outras pessoas cegas aprendessem a ler. Anos depois, já como professor, Fábio ensinou a leitura e a escrita a um aluno cego que, segundo ele, mudou completamente a perspectiva que ele tinha sobre a profissão. Quando aquilo bateu na prática, você imagina a emoção. Assim como a leitura e a escrita foram libertadoras para mim, imaginei que seriam para outras pessoas também Cego desde o nascimento, Fábio Deodatto dedica a carreira à inclusão de alunos com deficiência em Ribeirão Preto (SP) Arquivo pessoal Há 17 anos, o professor integra a Secretaria de Educação de Ribeirão Preto. Durante 14 deles, deu aulas diretamente a estudantes com deficiência. Atualmente, Fábio prepara os conteúdos das formações dos professores de atendimento educacional especializado (AEE). Os encontros acontecem presencialmente, por videochamada e por meio de módulos disponibilizados em uma plataforma on-line. 🔎 O AEE complementa o ensino regular com recursos e estratégias de acessibilidade voltados às necessidades de cada estudante. Fábio também elabora materiais e documentos pedagógicos, como planos educacionais individualizados, e visita escolas para acompanhar estudantes, principalmente os cegos. "Eu leio artigos, estudo a temática, crio os slides e organizo todo o processo para passar essa formação. Quando é necessário, também visito as escolas para acompanhar os alunos e entender do que eles precisam." Fábio atua na formação de 150 docentes responsáveis pelo atendimento de cerca de 1,9 mil estudantes com deficiência Arquivo pessoal Vontade de mudar a realidade Quando Fábio começou a trabalhar na rede municipal, em 2009, Ribeirão Preto tinha duas salas destinadas ao atendimento educacional especializado. Atualmente, segundo ele, são quase 40, que atendem cerca de 1,9 mil alunos com deficiência atendidos por 150 docentes do AEE. O grupo inclui estudantes cegos, surdos, com deficiências físicas ou intelectuais, transtorno do espectro autista (TEA), síndrome de Down, altas habilidades e deficiências múltiplas. Fábio explica que as escolas contam com professores para atender às necessidades destes alunos e auxiliar os docentes das turmas regulares. O trabalho envolve adaptações de atividades e estratégias específicas para cada estudante. "A nossa ideia é entender as necessidades dos alunos e dos professores regentes. É um processo não só pedagógico, mas também administrativo." Para realizar as atividades, o professor utiliza leitores de tela no computador e no celular, que transformam em voz as informações exibidas nos aparelhos. Ele também usa ferramentas de inteligência artificial para auxiliar na leitura e na descrição de conteúdos. Fábio atua na formação de 150 docentes responsáveis pelo atendimento de cerca de 1,9 mil estudantes com deficiência Arquivo pessoal Da falta de braile à profissão Fábio conta que sempre frequentou escolas regulares, mas precisou lidar com a falta de materiais acessíveis e de profissionais preparados para receber alunos com deficiência. Como parte dos professores não conhecia o braile, a mãe dele precisava transcrever as tarefas para que os docentes conseguissem corrigi-las. Alguns também presumiam que, por ser cego, Fábio tinha deficiência intelectual. "Pouquíssima gente sabia o que era braile. Tive professores que achavam que, por eu ser cego, também tinha deficiência intelectual e que eu não teria capacidade de responder." Fábio Deodatto trabalha há 17 anos na rede municipal de ensino de Ribeirão Preto Arquivo pessoal Mas Fábio não desistiu e também não parou de estudar. Antes de ingressar no ensino superior, ele fez um curso técnico em administração. No início dos anos 2000, começou a faculdade de pedagogia. Na época, leitores de tela e outros equipamentos acessíveis já existiam, mas Fábio não tinha condições financeiras para comprá-los e a instituição de ensino também não oferecia os recursos. Para acompanhar as aulas, ele dependia da colaboração de professores e colegas. As avaliações eram feitas oralmente, em dupla ou em braile. Em uma das situações, ensinou uma colega a transcrever as respostas para a escrita convencional. "Naquele momento, o que havia dentro da faculdade era a força de vontade dos professores em fazer a coisa acontecer. Uma pessoa ficava ao meu lado ditando o que estava sendo escrito ou os próprios professores falavam." Além de pedagogia, Fábio concluiu outras cinco formações: administração de empresas, educação especial, teologia, educação cristã e gestão pública. Em 2008, prestou concurso para a Prefeitura de Ribeirão Preto e foi convocado no início de 2009. Desde então, o professor faz parte do quadro de servidores da Secretaria de Educação. Cego desde o nascimento, Fábio Deodatto dedica a carreira à inclusão de alunos com deficiência em Ribeirão Preto (SP) Arquivo pessoal Cegueira congênita Fábio nasceu em 1983, em São Paulo (SP), e é filho de mãe baiana e pai cearense. Ele conta que a família não tinha referências próximas de pessoas cegas até ele nascer sem visão. A avó materna percebeu que Fábio não acompanhava os brinquedos com os olhos e alertou a mãe. Após procurar atendimento médico, a família recebeu o diagnóstico de cegueira congênita associada a uma condição chamada hipoplasia do nervo óptico. "Em um primeiro momento, meus pais ficaram preocupados. Eles foram surpreendidos porque não havia, nem por parte de pai nem por parte de mãe, pessoas cegas na família." Aos 9 anos, a família se mudou para Ribeirão Preto. Em 2023, Fábio recebeu o título de cidadão ribeirão-pretano. De origem humilde, ele conta que cresceu em uma época em que pessoas cegas tinham poucas oportunidades de estudar e trabalhar. Qual era a sina de um cego nos anos 1980? Você via um cego nas praças pedindo dinheiro, tocando instrumento para pedir dinheiro. Não tinha cego na faculdade, eram raríssimas exceções. Nem eu nem a minha família aceitamos aquilo. Cego desde o nascimento, Fábio Deodatto dedica a carreira à inclusão de alunos com deficiência em Ribeirão Preto (SP) Arquivo pessoal 'Primeiro é a pessoa' Apesar da ampliação do atendimento especializado e dos avanços nas políticas públicas, Fábio afirma que o capacitismo ainda é uma das principais barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência. Para ele, a inclusão começa quando a deficiência deixa de ser tratada como a única característica de alguém. "Por que pessoa com deficiência? Porque a deficiência vem depois da pessoa. Primeiro é a pessoa, ela tem um nome. Meu nome é Fábio. Eu não sou o ceguinho do bairro. Sou cego, mas a cegueira não me caracteriza no sentido de empoderamento ou inferioridade. A cegueira é um componente do que sou". *Sob a supervisão de Flávia Santucci Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

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