PF aciona Interpol para rastrear bens de Vorcaro nos EUA e Europa

PF: Vorcaro oferecia R$ 2 mi a influenciadores para ataques ao Banco Central A Polícia Federal (PF) acionou a Interpol para tentar localizar bens e ativos do e...

PF aciona Interpol para rastrear bens de Vorcaro nos EUA e Europa
PF aciona Interpol para rastrear bens de Vorcaro nos EUA e Europa (Foto: Reprodução)

PF: Vorcaro oferecia R$ 2 mi a influenciadores para ataques ao Banco Central A Polícia Federal (PF) acionou a Interpol para tentar localizar bens e ativos do empresário Daniel Vorcaro na América do Norte e na Europa, em uma nova frente da investigação que apura um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes envolvendo o Banco Master. A medida, que vinha sendo estudada há alguns meses, foi confirmada por investigadores familiarizados com o caso ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado. Segundo os investigadores da PF, a solicitação à Interpol foi feita por meio de uma ferramenta conhecida como "Silver Notice" (Alerta Prata, em tradução literal do inglês). Trata-se de um mecanismo da Interpol implementado recentemente pela organização e que é voltado ao rastreamento internacional de bens ligados a pessoas investigadas ou condenadas por crimes financeiros. A expectativa entre os investigadores é de que Vorcaro tenha um patrimônio milionário espalhado por diversos países, fruto, em parte, das atividades supostamente criminosas que ele desempenhou à frente do conglomerado liderado pelo Banco Master. O colapso do grupo comandado por ele, que inclui pelo menos três instituições financeiras, deixou um rombo de R$ 52 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A notificação à Interpol pede que autoridades policiais dos países-alvo informem a existência de imóveis, empresas, contas bancárias, embarcações, aeronaves ou outros ativos eventualmente registrados em nome do investigado ou vinculados a ele por meio de empresas. Segundo a PF, essas informações podem subsidiar futuras medidas de bloqueio, confisco e repatriação de patrimônio de Vorcaro caso a Justiça determine que esses bens tenham origem ilícita. Ainda de acordo com os investigadores, os países-alvo do pedido ainda não informaram sobre quais bens e ativos foram identificados. A PF suspeita que parte do patrimônio de Daniel Vorcaro tenha sido pulverizado em propriedades e fundos de investimento em diversos países, inclusive paraísos fiscais. O temor da PF é que Vorcaro consiga blindar esse patrimônio ao longo do tempo, seja vendendo propriedades seja colocando-o em nome de outras pessoas. A BBC News Brasil enviou perguntas à defesa de Daniel Vorcaro, mas não recebeu respostas. Vorcaro está preso preventivamente em uma unidade prisional de Brasília Reprodução/ Esfera Brasil no YouTube Patrimônio pulverizado O paradeiro dos bens de Daniel Vorcaro tornou-se um dos principais objetivos da Polícia Federal desde o avanço das investigações da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025. Desde que assumiu o comando do Banco Master, em 2019, Vorcaro ficou conhecido por ostentar um padrão de vida luxuoso com direito a festas milionárias em destinos europeus, mansões em Brasília e apartamentos de alto padrão em São Paulo. Documentos apontam, por exemplo, que, em 2021, Vorcaro realizou uma festa de aniversário para a sua filha em uma ilha particular nas Bahamas ao custo de aproximadamente R$ 5 milhões. Documentos indicam ainda que, em setembro de 2023, Vorcaro fez uma festa em Taormina, na Sicília, e desembolsou R$ 363,2 milhões entre a produção, acomodações, hospedagens e contratação de artistas como Coldplay e Michael Bublé. Dados divulgados durante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS mostraram que, em 2024, Vorcaro tinha um patrimônio de R$ 2,4 bilhões declarados à Receita Federal. Investigadores ouvidos pela BBC News Brasil, no entanto, avaliam que os bens do banqueiro possam ser muito superiores a esse valor. De acordo com eles, identificar a extensão e a localização do patrimônio do empresário é considerado fundamental diante da dimensão financeira do caso. Segundo pessoas ligadas ao caso, liquidantes responsáveis por procedimentos envolvendo empresas relacionadas ao grupo de Vorcaro no exterior já apontaram a existência de propriedades de alto valor atribuídas ao empresário nos Estados Unidos. Um exemplo é uma mansão avaliada em R$ 180 milhões na Flórida que, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, teria sido alvo de uma tentativa de venda por parte do pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, que também é investigado pela Operação Compliance Zero. A transação, segundo o jornal, foi identificada pelo liquidante do banco, a EFB Regimes Especiais, com base em informações colhidas nos Estados Unidos. Investigadores afirmam, porém, que ainda não há um mapa completo dos ativos eventualmente mantidos fora do Brasil. É justamente essa lacuna que a Polícia Federal pretende reduzir com a ajuda da Interpol e foi esse um dos principais pontos que barrou o avanço de um acordo de colaboração premiada entre Vorcaro, a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR). Segundo investigadores ouvidos pela BBC News Brasil, durante as negociações para o acordo, Vorcaro não teria colaborado fornecendo a localização de partes de seu patrimônio. Sem consenso sobre esse tema, a colaboração não avançou e hoje, Vorcaro, continua preso em uma penitenciária de Brasília. A difusão da "Silver Notice" é a segunda frente de investigação sobre o patrimônio de Vorcaro no exterior. Em abril, a Justiça dos Estados Unidos havia autorizado o liquidante do banco realize consultas a instituições financeiras norte-americanas em busca de ativos vinculados ao banqueiro. A decisão permitiu a busca por imóveis, dinheiro em fundos de investimentos e até mesmo obras de arte. Vorcaro assumiu o controle do Banco Master em 2019 Bloomberg via Getty Images Cronologia do caso O caso envolvendo Daniel Vorcaro eclodiu no dia 18 de novembro de 2025, quando a PF deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero. Naquele dia, ele foi preso pela primeira vez. Na mesma ocasião, o Banco Central anunciou a liquidação do Master e de outras duas instituições financeiras vinculadas a ele. Vorcaro foi solto no final de novembro, após uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), mas foi preso novamente em março de 2026, durante a terceira fase da operação. Desde então, ele permanece preso. A investigação apura supostos crimes contra o sistema financeiro nacional envolvendo a tentativa de venda de ativos do Master para o Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões. Essa venda, segundo as investigações, era uma tentativa de salvar o Master, que enfrentava dificuldades para saldar seus compromissos com milhões de investidores. Durante o negócio, o Master teria tentado vender ativos supervalorizados ou sem lastro para o banco público. Ao longo das investigações, a PF identificou, também, suspeitas de que o Master mantinha um esquema de captação irregular de investimentos feitos por Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), fundos que recebem contribuições de servidores públicos em diferentes Estados e cidades do Brasil para garantir as suas aposentadorias. As suspeitas são de que esses investimentos teriam sido feitos por pressão política de pessoas próximas a Vorcaro. Em depoimentos e manifestações à Justiça, a defesa do banqueiro vem negando o cometimento desses crimes. As investigações sobre o caso também alcançaram suas supostas relações com políticos e integrantes do Judiciário, entre eles os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Toffoli deixou a relatoria do caso no STF em fevereiro, depois de pedir a redistribuição do processo. A decisão ocorreu após questionamentos sobre sua ligação com uma empresa familiar da qual é sócio, que teve parte de sua participação vendida, em 2021, a um fundo controlado por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. O ministro afirmou que jamais recebeu qualquer valor de Vorcaro ou de Zettel, que não conhece o gestor do fundo e que nunca manteve relação de amizade com o banqueiro. O ministro André Mendonça foi sorteado e assumiu a relatoria do caso. À época, o STF afirmou, em nota assinada pelos dez ministros da Corte, que não havia motivo para declarar a suspeição de Toffoli. A nota também informou que o pedido de redistribuição havia sido feito pelo próprio ministro e acolhido pela Presidência do tribunal, "considerados os altos interesses institucionais". Moraes também foi alvo de questionamentos após reportagens revelarem um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, apontarem supostas trocas de mensagens entre o ministro e Daniel Vorcaro e relatarem contatos com o presidente do Banco Central. Em nota, o STF negou que Moraes tenha tratado do Banco Master com o BC e afirmou que uma análise técnica dos dados telemáticos de Vorcaro concluiu que as mensagens atribuídas ao ministro "não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes". As investigações também avançaram sobre as relações do banqueiro com os senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A PF investiga supostas vantagens econômicas pagas por Vorcaro ou pessoas e empresas próximas a ele aos parlamentares. No caso de Ciro Nogueira, a PF investiga se o senador teria apresentado uma emenda parlamentar que beneficiaria os negócios do banqueiro em troca de presentes e o pagamento de despesas como viagens, além de uma suposta mesada. Ciro e sua defesa negam as suspeitas. No caso do senador petista, a PF apura a suposta ligação dele com o também banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. As suspeitas recaem sobre um apartamento de R$ 2,5 milhões de Wagner em Salvador. As suspeitas são de que as vantagens teriam sido pagas em troca de apoio parlamentar a projetos que beneficiariam o Master. Wagner nega ter praticado qualquer irregularidade. Outro desdobramento envolve o senador Flávio Bolsonaro, que, segundo o site The Intercept Brasil, pediu US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Flávio afirma que a relação era exclusivamente comercial e que cobrava parcelas atrasadas de um patrocínio legal. A BBC News Brasil procurou a defesa do banqueiro para comentar a difusão prateada feita pela Polícia Federal, mas não recebeu respostas.

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