Banda que atravessa gerações mantém viva em Itapecerica tradição musical iniciada há mais de dois séculos

Banda de Itapecerica mantém viva tradição musical de mais de 200 anos Em Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas, a música não apenas acompanha a história. ...

Banda que atravessa gerações mantém viva em Itapecerica tradição musical iniciada há mais de dois séculos
Banda que atravessa gerações mantém viva em Itapecerica tradição musical iniciada há mais de dois séculos (Foto: Reprodução)

Banda de Itapecerica mantém viva tradição musical de mais de 200 anos Em Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas, a música não apenas acompanha a história. Em muitos momentos, ela é parte da própria história. Há mais de dois séculos, instrumentos e vozes acompanham celebrações religiosas, procissões e momentos importantes da comunidade. Entre as instituições que mantêm essa tradição está a Corporação Musical Nossa Senhora das Dores. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Centro-Oeste de Minas no WhatsApp Esta reportagem é a 5º da série especial “Itapecerica: Sabores, Sons e Memórias”, publicada pelo g1 aos domingos. Em cada capítulo, diferentes aspectos da história, da cultura e das tradições do município são revisitados a partir das memórias de quem ajuda a preservar esse patrimônio. Mais de dois séculos de atuação Corporação Musical Nossa Senhora das Dores mantém tradição ligada à história, à fé e à cultura do município Anna Lúcia Silva/g1 Quem passa pelas ruas de Itapecerica durante uma procissão, festa religiosa ou apresentação da Corporação Musical Nossa Senhora das Dores logo reconhece o som. É o dobrado que anuncia a chegada da banda, a marcha que acompanha o cortejo, a música sacra que preenche uma igreja. São diferentes ritmos e repertórios executados por músicos que fazem da tradição parte da rotina que emociona a cidade. Atualmente, a corporação reúne cerca de 50 músicos, entre diferentes gerações. Trompetes, trombones, saxofones, clarinetes, tubas, bombardinos, caixas, pratos e outros instrumentos compõem uma formação que transforma partituras antigas em música que continua sendo ouvida nas ruas e igrejas de Itapecerica. À frente do grupo está a maestrina Cássia Theresa Rodrigues Medeiros. É ela quem conduz os músicos durante apresentações que mantêm um repertório construído ao longo de décadas e, em parte, de séculos. A banda toca música sacra, dobrados, marchas e outras peças que fazem parte da tradição das corporações musicais mineiras. O repertório muda de acordo com a ocasião, mas a função permanece, que é acompanhar a comunidade em momentos de fé, celebração e encontro. E é justamente essa presença que ajuda a explicar por que uma instituição criada há tanto tempo ainda faz sentido para uma cidade do século XXI. Uma história que começou há mais de 200 anos O marco de 1808 é considerado pela tradição histórica da corporação como o início dessa trajetória. Naquele ano, um registro relata a realização de um solene Te Deum, na Igreja de São Francisco, para celebrar a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, acompanhado de “boa música”. A documentação, porém, não permite afirmar que os músicos daquele episódio fossem exatamente os integrantes da atual Corporação Nossa Senhora das Dores. Por isso, 1808 é tratado como um marco simbólico da história da instituição. A música sacra ganhou força nas décadas seguintes. Segundo a Diocese de Divinópolis, por volta de 1830, a tradição musical que já existia na comunidade passou por um processo de organização e passou a ser identificada como Nossa Senhora das Dores, com participação do cônego Domiciano Francisco de Oliveira e do mestre Lourenço. Mais do que uma banda, a corporação acabou se tornando parte da própria formação cultural de Itapecerica. Para Dom Gil Antônio Moreira, bispo emérito de Juiz de Fora e estudioso da história religiosa do município, não é possível contar a trajetória da cidade sem falar da música. “A relação da banda e da cidade se entrelaçam”, resume. Quando a música virou parte da fé Durante gerações, música e religião caminharam juntas em Itapecerica Anna Lúcia Silva/g1 Durante gerações, música e religião caminharam juntas em Itapecerica. As celebrações católicas eram acompanhadas por músicos, padres e compositores que ajudaram a formar um repertório próprio e a transmitir o conhecimento de uma geração para outra. Dom Gil cita, entre os personagens que marcaram essa trajetória, o cônego Domiciano, o cônego Cesário, o monsenhor Cerqueira e o padre Herculano da Silva Paz. O monsenhor Cerqueira era violinista e tinha formação musical. Além da atuação religiosa, esteve ligado à construção da atual Matriz de São Bento e, segundo Dom Gil, tinha amplo conhecimento de música clássica. O padre Herculano, morto em 1949, também era músico e tocava instrumento de sopro. Segundo Dom Gil, tinha um ouvido musical especialmente apurado e exerceu influência sobre músicos da cidade. “Ele era conhecedor de música clássica, de um ouvido muito fino, apurado, e deu grande valor à corporação, sobretudo na parte sacra”, conta. Essa tradição ajuda a entender por que a música sacra permanece presente em celebrações importantes de Itapecerica até hoje. Das partituras antigas aos músicos de hoje Dom Gil com uma partitura da banda que tem mais de dois séculos de história em Itapecerica Anna Lúcia Silva/g1 A história da corporação também foi construída por professores, regentes e compositores que deixaram suas marcas muito além das apresentações. Um deles foi Carmelo Mesquita, músico, professor, compositor e regente. Ele ensinava instrumentos de cordas e ajudou a formar músicos em Itapecerica. Segundo os registros históricos apresentados por Dom Gil, deixou centenas de composições, entre peças sacras e marchas executadas durante celebrações da Semana Santa. O trabalho de Carmelo atravessou gerações. Ele foi pai de Dom Antônio Carlos Mesquita, nascido em Itapecerica em 1923 e que se tornou bispo de São João del-Rei. A biografia oficial da Diocese destaca Carmelo como músico, maestro e compositor que regeu a Corporação Musical Nossa Senhora das Dores por muitos anos. Outro nome importante é Cesário Mendes de Cerqueira, autor de um extenso conjunto de obras sacras. Uma pesquisa da Universidade Federal de São João del-Rei catalogou cerca de 400 composições atribuídas a ele e preservadas no arquivo da corporação. São partituras que sobreviveram ao tempo e que ajudam a mostrar uma característica importante da banda: parte de sua história não está apenas nos documentos, mas também no repertório que continua sendo executado. Da igreja para as ruas Se a música sacra ajudou a formar a identidade da corporação, os dobrados fizeram a banda ganhar ainda mais espaço no cotidiano da cidade. As bandas de música são uma das marcas da cultura mineira. Em cidades do interior, elas acompanham procissões, festas, solenidades, cortejos e comemorações. Em Itapecerica, essa tradição ganhou características próprias e se tornou parte da paisagem sonora do município. “Tradição mineira é tocar dobrado”, resume Dom Gil. A frase traduz uma relação que vai além da música. Quando uma banda passa pelas ruas, moradores reconhecem os instrumentos, o repertório e, muitas vezes, os próprios músicos. Crianças e adultos se aproximam. Gerações diferentes dividem o mesmo espaço, algumas para ouvir, outras para aprender a tocar. A força dessa tradição também aparece na existência de outras iniciativas musicais na cidade. Além da Nossa Senhora das Dores, Itapecerica possui a Corporação Musical Santa Cecília, que também tem uma história ligada à antiga banda. A Santa Cecília surgiu de uma divisão entre músicos da Nossa Senhora das Dores no fim do século XIX. Os grupos ficaram conhecidos como “Catimbáu” e “Carrara”. Em 1908, músicos ligados a um deles se uniram para formar a Lyra Santa Cecília, posteriormente denominada Corporação Musical Santa Cecília. A história das duas corporações mostra como a música se espalhou pela cidade e passou a fazer parte da identidade local. O som que mantém uma tradição viva Em agosto de 2026, a Corporação Musical Nossa Senhora das Dores voltou à Igreja de São Francisco para uma apresentação que reuniu música, memória e história Anna Lúcia Silva/g1 Dom Gil participou do momento e falou sobre a trajetória da banda e sua relação com a tradição religiosa de Itapecerica. É também nessa igreja que acontece uma das manifestações mais particulares do município: o Setenário das Dores, celebração dedicada às sete dores de Nossa Senhora e realizada nos dias que antecedem a Semana Santa. Durante o rito, a música sacra ocupa um lugar central, com cânticos em latim e peças de compositores mineiros. Em 2018, o Setenário foi registrado como patrimônio cultural imaterial de Itapecerica. Para quem acompanha a celebração, as partituras antigas deixam de ser apenas documentos históricos. Elas ganham voz, instrumentos e movimento. É nesse momento que a história da corporação se torna visível, ou melhor, audível. Mais do que idade, continuidade A Corporação Musical Nossa Senhora das Dores é reconhecida pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) entre as corporações musicais de Minas Gerais e mantém sede no Centro de Itapecerica. Mas talvez o principal patrimônio da banda não esteja apenas no acervo de partituras ou na antiguidade de sua história. "Está certamente, na capacidade de fazer com que uma tradição de mais de dois séculos continue encontrando novos músicos. São 216 anos de atuação ininterrupta", pontuou Dom Gil. Quem toca hoje ocupa um espaço que já foi de outros mestres. Quem aprende um instrumento passa a integrar uma cadeia que começou muito antes de seu nascimento. E cada apresentação acrescenta mais um capítulo a essa história. São mais de dois séculos entre aquele registro de “boa música” na Igreja de São Francisco e os instrumentos que hoje percorrem as ruas da cidade. Mudaram os músicos. Mudaram os regentes. Mudaram os tempos. Mas, quando a batuta sobe e os primeiros acordes começam, Itapecerica reconhece um som que atravessou gerações. A história da cidade continua tendo trilha sonora. Leia também: Aos 103 anos, Dona Nem vive cercada por dois séculos de história Reinado do Rosário transforma Itapecerica com fé, cultura e tradição Conheça a Cachaça do Mudo e uma tradição de quatro gerações VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas

Fale Conosco